sábado, 25 de setembro de 2010

O Kid Abelha nasceu no final de 1981, com todo o jeito de que não iria muito longe. O núcleo inicial do grupo era composto por Carlos Leoni, no baixo, e sua namorada Paula Toller, nos vocais, mais os amigos Carlos Beni na bateria e George Israel no saxofone e, um pouco mais tarde, o guitarrista Bruno Fortunato. Com uma vocalista tímida que cantava de costas para o público, um saxofonista que faltava a shows e sem uma formação e um nome definidos, a banda tinha tudo para não dar certo. Mas apostou e se deu bem ao enviar uma fita demo das canções “Distração” e “Vida de cão é chato pra cachorro” para a rádio Fluminense FM, famosa na época por abrir as portas para novas bandas, e para o Circo Voador, espaço para shows que foi essencial no lançamento dos grupos da geração 80 do pop-rock no Rio de Janeiro.
“Distração” tornou-se um sucesso e o grupo ganhou fãs com os shows no Circo Voador. O Kid Abelha e Os Abóboras Selvagens passou a fazer parte da safra dos novos grupos cariocas do pop brasileiro dos anos 80. A presença do Kid Abelha nos shows do Circo Voador era tal que o grupo (e também Os Paralamas do Sucesso) foi escalado para se apresentar até na Primeira Noite Punk do Rio de Janeiro, ao lado de Ratos do Porão, Inocentes, Coquetel Molotov e Lixomania.
O primeiro álbum do grupo foi lançado em 1984. “Seu Espião” trouxe sucessos como “Pintura Íntima”, “Fixação”, “Alice (Não escreva aquela carta de amor)” e “Como eu quero”. O CD deixou claro o estilo descompromissado do pop do Kid Abelha, que o aproximava do estilo do iê-iê-iê da Jovem Guarda, mas com uma visão um pouco menos ingênua do que o da turma de Roberto Carlos. A presença do saxofone na sonoridade das canções era também um diferencial da banda em relação às demais daquela geração.
Antes de chegar a esse primeiro álbum, um compacto com as canções “Pintura Íntima” e “Por que não eu?” produzido por Lulu Santos foi importante para o sucesso do Kid Abelha, com a vendagem de 100 mil unidades. Mas mais do que isso ele foi essencial para definir o tipo de canção que o grupo faria. Segundo Leoni, a banda tinha a pretensão de ser um cruzamento de Roxy Music com Peter Gabriel. Mas não tinham competência nem para muito menos. O papel de Lulu Santos, que era uma referência para os novos grupos do pop-rock carioca oitentista, foi o de reduzir a pretensão artística do grupo e dar às suas canções um formato, que o grupo parece ter adotado como fórmula para o sucesso dali em diante.
Em 1985 chegou às lojas “Educação Sentimental”, segundo álbum do Kid Abelha. A fórmula foi repetida, desta vez com produção de Liminha, ex-baixista de Os Mutantes, e o disco trouxe novos sucessos, como “Lágrimas e chuva”, “Garotos” e “A Fórmula do amor”. No entanto, em meio a uma seqüência de hits, o Kid Abelha enfrentou não só a reprovação da crítica como também um público hostil na sua participação na primeira edição do Rock in Rio em 85. A primeira apresentação da banda no festival foi programada para a noite que tinha como atrações principais Scorpions e AC/DC. Os fãs metaleiros não perdoaram as atrações que destoavam completamente das principais.
Na onda do pop brasileiro dos anos 80, de transformar os primeiros sucessos dos grupos em versões ao vivo, o Kid Abelha lança em 1986 seu terceiro álbum, a partir de uma gravação do show da banda no Anhembi, em São Paulo. No mesmo ano, o baixista Leoni deixou o grupo e formou uma nova banda, os Heróis da Resistência. Desde então eles abandonaram Os Abóboras Selvagens e passaram a se chamar somente Kid Abelha.

Sem seu fundador e principal compositor, o grupo lançou mão de um novo estilo para sua ex-tímida vocalista. Paula Toller adotou uma imagem de símbolo sexual e o grupo lançou o CD “Tomate” em 1989.  A canção “Amanhã é 23” foi o grande sucesso do álbum, sendo uma das mais executadas nas rádios. No caminho trilhado pelo Kid Abelha nos anos 80, eles passaram ao lado de temas mais engajados. Apesar de toda a efervescência política e social do país naquela década, o repertório construído pela banda era quase que exclusivamente sobre temas amorosos. Enquanto grupos da mesma geração como Legião Urbana, Capital Inicial, RPM e Os Paralamas do Sucesso, entre outros, faziam constantemente incursões críticas a questões políticas e sociais, o Kid Abelha manteve suas canções alienadas desses temas.
Quando entra a década de 90, uma época em que a maioria das bandas que lançaram o pop-rock brasileiro dos anos 80 enfrentava uma crise de criatividade e popularidade, o Kid Abelha manteve-se bem nas paradas. Em 1991, o grupo lança o álbum “Tudo é Permitido”, que trouxe o sucesso “Grand’Hotel”, que volta a colocar o grupo entre os mais executados nas rádios do país. Os clipes produzidos para as canções “No seu lugar” e “Grand’Hotel”, este gravado em Veneza, ajudaram a manter o Kid Abelha entre os mais populares e a lotar os shows.
No decorrer dos anos 90, a banda continuou a produzir outros sucessos, alguns deles regravações de canções como “Na rua, na chuva, na fazenda”, de Hyldon. É uma fase também em que predomina uma certa erotização do grupo, tanto nas canções como na projeção da imagem de Paula Toller.
Assim como aconteceu com outros grupos pop que surgiram nos anos 80, a realização do Acústico MTV em 2002 impulsionou a carreira do Kid Abelha no novo século. As versões dos sucessos feitos ao longo de duas décadas presentes no CD e no DVD da série colocaram o grupo nas listas dos vintes álbuns mais vendidos no país em 2003, 2005 e 2006.
Também como outros grupos sobreviventes da geração 80, os integrantes do Kid Abelha têm se lançado em carreiras solos em paralelo à da banda. A vocalista Paula Toller é quem tem tido maior destaque nessa investida.  A cantora tem discos solos lançados em 1998 e 2007, onde interpreta desde canções dos anos 30 e 40 até composições feitas em parcerias com compositores estrangeiros, como o californiano Donavon Frankenreiter.
O Kid Abelha nasceu nos anos 80 como um grupo totalmente inspirado na estética e na sonoridade da new wave. Desde então adotou como fórmula do sucesso fazer canções com letras românticas, descompromissadas e divertidas associadas a uma sonoridade dançante. O grupo tem seguido à risca a receita de fazer um pop simples, adocicado e agradável. Apesar de ter um início de carreira praticamente amador, o Kid Abelha parece ter entendido bem o funcionamento do mainstream da canção pop.

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